Detetive 68: Escultura que causou polêmica não representa uma vagina


O Jornal O Globo explicou a confusão causada pela escultura: desde que foi inaugurada, no dia 30 de dezembro, a escultura “Diva”, da artista plástica Juliana Notari tem causado polêmica. A obra, que representa uma vulva, está instalada no parque artístico-botânico Usina de Arte, em Água Preta, Pernambuco.

Não vou entrar na discussão sobre o valor artístico da obra, nem me deter na polêmica que causou (há um aspecto levantado pelo movimento negro que é muito importante), mas de tudo o que já foi dito sobre “Diva” fica uma certeza: quase ninguém sabe o que é uma vagina.

A artista Juliana Notari sabe. Quando postou em seu Instagram sobre a finalização da obra, ela escreveu: “Diva é uma land art, uma enorme escavação em formato de vulva/ferida medindo 33 metros de altura, por 16 metros de largura e 6 metros de profundidade, recoberta por concreto armado e resina”.

Mas parece que ninguém leu o que Juliana escreveu.

Praticamente todas as matérias publicadas pela imprensa brasileira ou internacional (a polêmica virou notícia no britânico “Guardian” e no português “Jornal de Notícias”) dizem que a obra representa uma vagina. Mas isso não é verdade. E quase todos os textos a respeito de “Diva” tratam as palavras “vulva e “vagina” como sinôminos. Não são.

Em entrevista à jornalista Leda Antunes, da plataforma Celina, a ginecologista Neila Maria de Gois Speck, com mais de 30 anos de prática médica, ressaltou o erro tão comumente cometido e explicou a diferença entre vagina e vulva:

— O primeiro erro é usar “vagina” como um termo genérico. Na verdade, quando falamos da parte externa, estamos falando da vulva. A vagina é o canal vaginal. A mulher só consegue ver a entrada da vagina, a abertura vaginal. A vagina, que liga a vulva ao colo do útero, é o médico quem vê, no consultório — disse a ginecologista.

Mas, apesar dos esforços de médicas como Neila Speck, confundir vulva e vagina é um erro tão comum que até mesmo a série “Sex Education”, da Netflix, o fez. E não foi uma vez, mas duas.

Na primeira temporada, a foto de uma aluna nua circula pela escola. Para apoiar a vítima de sexting, um grupo de garotas se organiza com o grito de “é a minha vagina”. A cena, que é uma grande prova de sororidade e também um dos melhores momentos da série, seria correta se as personagens tivessem dito “é a minha vulva”, afinal é essa a parte visível na imagem.

Já na segunda temporada, a série que pretende tratar de sexualidade de forma objetiva, despudorada e bem-humorada, escorrega outra vez. No quinto episódio, a terapeuta sexual interpretada por Gillian Anderson (logo ela!) fala sobre os pontos de prazer da vagina enquanto aponta para a maquete de uma vulva. Na sequência, ela remove o clitóris da maquete como se ele fosse um botão. Nada mais falso: o clitóris é extenso, tem mais de 8 mil terminações nervosas, e é um dos grandes responsáveis pelo prazer sexual feminino.

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André Diogo

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