REPORTAGEM

Em dia de julgamento, relembre o caso Jonhliane Paiva; quem era a vítima e quem são os envolvidos?


Manhã de 6 de agosto de 2020, o Acre se preparava para os eventos de comemoração ao feriado de Revolução Acreana de maneira atípica, já que o mundo enfrentava a severa pandemia de Covid-19, no entanto, a atenção da população neste dia, virou-se para uma tragédia até hoje lembrada com fervor.

Naquele 6 de agosto, a jovem Jonhliane Paiva de Souza, de 30 anos, foi atropelada e morta enquanto ia para o trabalho, por um motorista alcoolizado, que disputava um ‘racha’ em uma BMW, na Avenida Antônio da Rocha Viana, em Rio Branco.

Os dois veículos após o violento impacto

A vítima

Jonhliane nasceu em Rio Branco e morava do bairro Tancredo Neves com a sua mãe. Estudante de Ciências Contábeis, de família humilde, não tinha filhos e sonhava em concluir a faculdade e se tornar contadora. É o que contou sua mãe, dona Raimunda, à época do atropelamento, tomada por forte emoção.

A jovem foi funcionária da rede de supermercados Arasuper por sete anos, lá iniciou como operadora de caixa e depois foi promovida a escriturária fiscal. A empresa emitiu uma nota e pesar em virtude de sua morte, descrevendo-a como uma jovem compromissada e competente. Segundo familiares, era do emprego no supermercado, que a jovem tirava parte do sustento da sua família.

 

Veja uma breve retrospectiva da precoce e trágica morte de jonhliane Paiva: 

O atropelamento

A jovem pilotava uma motocicleta Honda Biz 125cc pela Rocha Viana a 46 Km/h, segundo laudo da perícia, quando foi atingida por uma BMW que estava a 151 Km/h, o impacto foi tão grande que a morte foi instantânea. O motorista era Ícaro José da Silva Pinto, de 34 anos.

Segundo informações, ele estava saindo de uma festa com a então namorada, Hatsue Said Caruta Tanaka, de 28 anos, quando resolveu disputar o racha contra Alan de Araújo Lima, de 21 anos, que dirigia um carro modelo New Beetle, que estava a 87 Km/h no momento do atropelamento.

Minutos após atropelar a jovem, Ícaro e Hatsue foram flagrados por uma câmera de segurança abandonando o local sem prestar socorro, calmamente e de mãos dadas, até serem resgatados pelo dono da festa que participavam, identificado como Diego Henrique Gurgel Hosken, de 32 anos.

Ícaro e Hatsue são flagrados abandonando o local do atropelamento

Histórico de violência

Segundo apurado na época dos fatos, no dia 8 de junho de 2013, em Ilhéus (BA), Ícaro Pinto já havia protagonizado outra cena criminosa, o espancamento de um turista italiano identificado como Marco Belli, que passou por três cirurgias. A confusão teria iniciaco após o turista ter esbarrado em Ícaro dentro de um bar chamado Mar Aberto.

Italiano espancado por Ícaro precisou se submeter a três cirurgias

Ao ser tombado, mesmo no chão Marco Belli recebeu socos e pontapés, de acordo com os autos do processo. O italiano foi socorrido e levado para o hospital, enquanto os três foram encaminhados para a Delegacia Central, onde foram soltos após pagamento de fiança. Em setembro de 2020, Ícaro foi condenado a 4 anos e 3 meses de prisão pela 1ª Vara de Ilhéus, em virtude deste episódio.

Advogada atuou de forma gratuita em favor da família, que realizou protestos pedindo por Justiça

A advogada Gilcielle Rodrigues se comoveu com o caso e decidiu defender a família de Jonhliane de forma gratuita. Ainda em agosto, a família de Jonhliane fez um protesto em frente à Assembleia Legislativa do Acre (Aleac) pedindo a prisão de Ícaro. Segundo o irmão da vítima, Jhonatan Paiva, o ato foi pacífico e visou também mobilizar o poder público a promover mudanças nas leis estaduais e, consequentemente no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), com o intuito de coibir crimes como o que vitimou a jovem motociclista.

Família de jovem morta faz protesto e pede a prisão de motorista de BMW | CORREIO68.COM
Protesto de familiares e amigos de Jonhliane na entrada da Aleac

Depois do atropelamento, Ícaro é flagrado em praia de Fortaleza

Enquanto a família de Jonhliane chorava as dores da perda de um ente querido, na calada da noite, Ícaro e Hatsue decidiram passar uns dias em Fortaleza, capital do Ceará. Mas o caso repercutiu tanto, que rapidamente alguém flagrou o casal à beira mar. O vídeo é do dia 13 de junho, poucos dias após o atropelamento. Assista clicando aqui.

A prisão de Ícaro

Após ter sido visto em Fortaleza, Ícaro teve a prisão decretada. Encurralado, decidiu retornar ao Acre e se entregar. Tentando evitar a atenção da imprensa ao caso que havia chocado toda a população acreana, informações foram manobradas, a princípio dando conta de que Ícaro chegaria no aeroporto de Rio Branco, quando na verdade ele havia desembarcado em Porto Velho (RO) e entrava de carro na capital acreana.

Mas a investigação policial estava a um passo e um certo esperava por Ícaro na fronteira entre os dois estados, efetuando sua prisão no dia 17 de agosto. O Correio 68 divulgou esse momento com exclusividade.

Motorista do outro carro também é preso

Alan de Araújo foi preso no dia 14 de agosto em casa, o delegado responsável pelo caso Alex Danny, enfatizou contradições no depoimento dado por Alan na delegacia, dentre elas, as afirmações de que não conhecia Ícaro e não estariam na mesma festa, fatos já elucidados pela investigação. Com Alan, no carona do carro também estava um jovem de 19 anos, que não teve sua identidade revelada pela polícia.

Prisão de Alan, motorista do New Beetle

Dupla segue presa

Ícaro Pinto e Alan Araújo de Lima seguem presos, desde agosto de 2020 no Batalhão de Operações Especiais (BOPE), em Rio Branco. Os dois foram pronunciados no último dia 12 de maio de 2021 e vão a julgamento que se inicia nesta terça-feira (17/5).

O Correio 68 traçou, na época dos fatos, o perfil de cada envolvido, clique e leia.

Ícaro Pinto e Alan de Araújo

O julgamento

Acontece a partir desta terça-feira na 2ª Vara do Tribunal do Júri e Auditoria Militar de Rio Branco. Em um processo de mais de 9 mil páginas, Ícaro responderá pelos crimes de homicídio doloso, quando há a intenção de matar, omissão de socorro e por embriaguez ao volante, enquanto Alan será julgado por homicídio.

† Em memória de Jonhliane Paiva

O Correio 68, após um ano do trágico acontecimento que vitimou a jovem Johnliane Paiva, reafirma sua solidariedade para com a família e o seu compromisso com a notícia, na crença de que o jornalismo, além de informar, por vezes cumpre o importante papel de promover a justiça social.

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André Diogo