PELA ORDEM

Bate papo com Michelle Mello: de garçonete na Europa à médica e vereadora de Rio Branco


Ela chegou poucos minutos após o combinado, pediu desculpas pelo pequeno atraso e com extrema simpatia disparou: “estou pronta, pode perguntar o que quiser”. Logo de cara duas coisas me chamaram a atenção na médica e vereadora Michelle Melo: o brilho no olhar e a simplicidade. Começou a conversa observando minha tatuagem no braço esquerdo e perguntando sobre a mesma, já engrenou em outro assunto e depois mais outro. Prosa boa! Tive a impressão que, se não estivesse ali para entrevista-la, pediria dois chopes.

Michelle, como prefere ser chamada, sem cargo ou profissão antecedendo ao nome, é o tipo da pessoa “boa de papo”. Ficamos mais de 1 hora com o gravador ligado e saí de lá com a certeza que ficaria outras tantas. Para ela não tem tempo ruim ou pergunta desconfortável. Fala sobre qualquer assunto sem o menor constrangimento. Ao contrário, conta com orgulho sobre o período em que trabalhou como garçonete na Europa e sonha com uma vida melhor para todos os acreanos. Saí de lá com a forte impressão de que, finalmente, temos algo verdadeiramente novo na tão enfadonha política acreana.

Ela tem dividido seu tempo entre a Câmara Municipal, a medicina e as aulas que ministra em uma universidade local. Apaixonada por cinema, diz que seu maior lazer é quando chega em casa e pode desfrutar da companhia dos filhos.

A senhora tem sido muito atuante como vereadora de Rio Branco, ainda encontra tempo para trabalhar como médica e dar aulas para uma faculdade local. E o lazer, onde fica nessa história?

Tá difícil (risos). Eu trabalho de domingo a domingo. Meu lazer mesmo é quando chego em casa com meus filhos. Essa pandemia também nos deixou muito mais tempo em casa. Tudo que eu quero mesmo é ir nesse próximo final de semana ao cinema. Eu amo cinema!

Pouca gente acreditou que a senhora teria uma atuação protagonista na Câmara Municipal, de repente você surge contrariando todos os prognósticos e tem atuação reconhecida de destaque em tão pouco tempo, a que, ou a quem, se atribui isso?

Às vezes as pessoas se assustam mesmo. Igual quando eu assumi a direção do PS (Pronto Socorro de Rio Branco), eu dormi médica e acordei diretora geral. Quase ninguém imaginava uma coisa dessas. Mas isso ocorre porque elas não conhecem a minha história de vida, até porque eu passei 10 anos fora do Acre, a minha formação e minha história foi quase toda fora.

Sua formação como médica foi na Espanha, conte um pouco sobre esse período na Europa.

Trabalhei para caramba! Trabalhei como garçonete na Espanha, de guia turística em Portugal, mesmo estudando medicina. A Espanha foi uma escola de vida para mim. Dou graças a Deus, mesmo com todas as dificuldades que passei, por essa oportunidade. Eu sempre quis estudar fora do país para poder trazer o melhor de lá para cá. Meu objetivo sempre foi o de voltar para o Acre depois de formada. Meu pai é de Cruzeiro do Sul e minha mãe de Manoel Urbano, todo mundo que eu amo está aqui, minhas raízes estão aqui. Na Espanha conheci de fato o produto de boas políticas públicas, aqui, infelizmente é só teoria, a gente ainda não consegue ver na prática.

Você saiu do Acre ainda uma adolescente e voltou médica, com mestrado em Urgência e Emergência e mãe. Achou que era chegada a hora do retorno? Por quê?

Eu trabalhei no Sistema único de Saúde lá na Espanha, o que me deu uma grande experiência, porque eu pude ver como funciona desde a atenção primária, o sistema de urgência e emergência, até a atenção terciária. O Projeto de Lei que apresentei (para que o cidadão possa marcar as consultas através do celular) é o formato que funciona na Espanha, você tem um número 0800, liga, dá seus dados e a pessoa já te diz qual o dia e horário da sua consulta. É muito mais digno! Eu sempre quis que isso funcionasse aqui. Como médica eu não consegui e agora, como vereadora, conquistamos esse direito para o cidadão e, se Deus quiser, vamos acabar com as filas da madrugada.

O que a medicina representa para você?

Missão! Eu não sou médica para ganhar dinheiro. Sou médica para cuidar das pessoas. Costumo dizer que, a única coisa que sei fazer na vida, é cuidar de gente.

E como a senhora tem encarado essa pandemia, como médica, mãe, mulher, vereadora…?

Não foi fácil! Eu sempre tive problema pulmonar, desde a infância. Sou considerada uma pessoa com problema pulmonar crônico. E eu sempre estive na linha de frente. Meus pais me pressionaram para que eu saísse do emprego, que fosse para casa, me pediram pelo amor de Deus para que eu não fosse para a linha de frente. Mas eu não consigo ficar em casa vendo as coisas acontecendo. Aí, eu fui para a linha de frente. Já estava como coordenadora do Núcleo Permanente de Ensino do SAMU e começamos um curso de captação nas Unidades para a questão da intubação traqueal, os medicamentos que se usavam, porque nem todos têm esse manejo e essa experiência. Nós aplicamos esse curso em todo o estado. Foi o período que eu mais trabalhei na vida. Um trabalho árduo, de muito estudo, porque todo dia as coisas mudavam, todo dia era uma novidade.

A senhora ainda é bastante jovem e já ocupa um lugar de destaque na vida profissional e política. E agora, quais são os novos sonhos e metas para o futuro?

Como mãe eu tenho uma meta: que meus filhos tenham uma profissão, que falem pelo menos um idioma diferente e que toquem pelo menos um instrumento musical. Que sejam pessoas solidárias e humildes. O meu desejo como médica se mistura com o meu desejo de política: eu quero um sistema único de saúde que funcione, que ninguém tenha que pagar um plano de saúde para ter um bom atendimento, que a gente possa confiar no nosso Pronto Socorro.

Algum projeto para a eleição do ano que vem?

Eu costumo dizer que eu quero o que Deus quer para mim. Eu gosto da parte de ajudar as pessoas e a política te permite ajudar de fato. Essa parte é muito boa. Mas existe um jogo político que não é muito claro e eu não gosto dessas coisas obscuras. É preciso muito discernimento, muito esforço mental.

Pode nos dar, em primeira mão, qual cargo pensa disputar na eleição de 2022?

Essa é uma pergunta que eu estou me fazendo bastante também (risos). Quando eu souber, eu digo (risos).

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André Diogo