Em anos de trabalho como jornalista cobrindo política, vi em vídeo uma atitude na Câmara de Rio Branco que não poderia deixar de ser comentada aqui no blog. A capital acreana só tem duas mulheres representando a população no parlamento, mas uma delas vem frequentemente sofrendo ataques pelo fato de ser uma mulher de pulso firme.
Hoje dedico este texto a falar sobre episódio. A cena lamentável partiu do presidente da Câmara, o capitão aposentado da Polícia Militar, N. Lima (Progressistas), que ameaçou falar com o pai da vereadora Michelle Melo (PDT) após ela contrariar seus interesses políticos em uma sessão (veja o vídeo abaixo).
A atitude claramente machista repercutiu nas redes sociais com muita indignação, afinal, a vereadora tem mostrado com trabalho que não é um mero “fantoche”.
Embora mais da metade dos vereadores tenham conseguido se reeleger nas eleições de 2020, a disputa trouxe novidades como a eleição de Michelle como a mais votada entre todos os 17 eleitos. A vereadora recebeu 3.576 votos em sua primeira disputa, mostrando desde sempre sua força política oriunda de um carisma único e demonstração da vontade de trabalhar.
A PROBLEMÁTICA
Segundo apurado pelo blog, N. Lima quis aprovar dois cargos de assessoria militar, sem funções estabelecidas no Projeto de Lei (PL). Michelle apresentou uma consulta feita por sua assessoria na Procuradoria do Município, citando o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e questionou que a criação de cargos comissionados sem funções e atribuições são inconstitucionais, o que teria irritado o presidente da Câmara.
HONROU A QUE VEIO
Seja qual for o viés político, ninguém pode negar que Michelle vem tendo uma das atuações mais próximas do que podemos chamar de exemplar na Câmara. Comunicativa com seu eleitorado e aberta aos questionamentos da população em geral, Michelle tem sido uma verdadeira pedra no sapato perante a inércia da gestão de Tião Bocalom, que é do mesmo partido que N. Lima.
NÃO BAIXOU A CABEÇA
Após o episódio, Michelle deixou claro que a vereadora é ela e não seu pai. Uma mulher de 37 anos, médica, mãe de 3 filhos. No twitter, ela desabafou: “escutar que querem ligar pro meu pai pra me fazer mudar, é indignante! Respeito, é tudo que nós mulheres queremos!”.
Ela ainda disse que “você só sabe o tamanho do machismo que há na política quando você é uma mulher dentro da política!”. Não é difícil você encontrar comentários pejorativos contra ela em notícias em que é mencionada, grande parte deles a desmerecendo pelo simples fato dela ser uma mulher.
MACHISMO NA POLÍTICA
Para quem não vê machismo quando um homem não gosta da atitude de uma mulher perante ele e ameaça procurar um outro homem para resolver o problema dando sinal de que ele é superior, minha dica é: melhore como ser humano. Este colunista é pai de uma menina e não gostaria de vê-la passando por embaraçosa situação.
VALE LEMBRAR
Esta está longe de ser a primeira polêmica em que N. Lima está envolvido na Câmara. Antes de ser reeleito, o capitão, assumidamente bolsonarista, foi repudiado em 2020 ao ler em sessão uma fake news que dizia que o Papa Francisco tinha intenção de cancelar a bíblia. O capitão chegou a chamá-lo de “anticristo”.
VEJA O VÍDEO
“Quem é a vereadora é a Michelle e não o Nelsinho”, disse a parlamentar.
NÃO ESTÁ SOZINHA
A presidente da Ação da Mulher Trabalhista no Acre (AMT), a advogada Vanessa Facundes, divulgou uma nota de repúdio contra N. Lima e em apoio à Michelle, leia na íntegra:
“A Ação da Mulher Trabalhista no Acre – AMT/AC, vem a público manifestar seu total repúdio pela conduta machista, preconceituosa e retrógrada do Vereador N. Lima (PP/AC) contra a Vereadora Michelle Melo (PDT/AC), ocorrida hoje, 24 de março de 2022, na Sessão Plenária da Câmara Municipal de Rio Branco – Acre.
Durante referida sessão, o Vereador N. Lima desrespeitou e ameaçou a Vereadora Michelle Melo, que se posicionava contrariamente aos seus interesses políticos, chegando ao ponto de até mesmo dizer que iria falar com o pai da Vereadora para demonstrar sua insatisfação, fato ultrajante que desconsidera a posição autônoma e independente da Vereadora Michelle Melo, pelo simples fato de ela ser mulher.
Estamos perante um exemplo claro de violência política de gênero, conduta expressamente proibida pelo Tribunal Superior Eleitoral – TSE, conforme Lei nº 14.192/2021.
Apesar de estarmos em março, mês mundial da luta e defesa das mulheres, ainda precisamos enfrentar fatos infelizes como esses, que só mostra que a sociedade precisa muito evoluir para evitar que a mulher seja julgada unicamente por ser mulher, e não pelo mérito de seu trabalho e pelo cargo de poder que ocupa.
À Vereadora Michelle Melo toda a nossa solidariedade e o compromisso de que iremos juntas lutar para que a violência de gênero seja sempre fortemente repelida, sobretudo nos espaços políticos. Ao Verador N. Lima um convite para reflexão e, oportunamente, um pedido público de desculpas não só à Vereadora Michelle Melo, mas a todas às mulheres do Brasil e do Nosso Acre, que lutam e que se esforçam muito mais que os homens para conquistar seus espaços de poder na sociedade”.




















