Há certo tempo, no pico de contaminação da Covid-19 e ao qual não escapei incólume, recebi o convite do caro Anderson Siqueira para escrever um texto para o Correio 68. O tema ficaria a meu critério. Aí que foi o problema. Qual tema eu conseguiria abordar de modo coeso, sucinto e com algum conhecimento de causa?
Aproveitando o gancho das últimas notícias sobre educação no nosso país e o resto de bateria do smartphone conectado no YouTube para o meu filho se entreter, quero dar minha visão sobre inclusão, mas não apenas na escola.
Não há, de fato, uma boa inclusão do modo que deveria ser. Vejo inúmeros relatos de cuidadores e profissionais da educação reclamando melhores condições de infraestrutura e treinamento, que não basta colocar uma PCD (pessoa com deficiência) na instituição e desejar que ela se comporte tal e qual uma pessoa “normal” (coloco aqui milhões de aspas metafóricas já que o conceito de normal rende pano para um compêndio). Também tenho visto pessoas de extrema sensibilidade, empatia e competência, lutando contra um sistema que finge incluir quando na verdade exclui ao negar direitos básicos, como maiores recursos em material adaptado e maiores núcleos de AEE (atendimento educacional especializado).
A inclusão não se faz apenas física, mas também deve ser psicossocial. Ignorar que a pessoa com deficiência também sente emoções, desejos e frustrações implica enorme empecilho no seu desenvolvimento. Por certo que é necessário adaptar, abrir mão de algumas coisas, escolher batalhas diariamente. Dou um exemplo: ao notar que meu filho se sentia agitado na hora do hino, conversei com a diretora e passei a entrar na fila com ele no colo, já que ele gosta da vibração da música mas não gostava da aglomeração. Nos outros dias, eu o deixava no horário onde tinha menor concentração de pessoas no pátio. E por aí vai.
Talvez tenha tido sorte em ter meu filho matriculado em uma escola onde até os coleguinhas acolhem ele, mesmo com as crises de agressividade e comportamento hiperativo? Talvez, e sou gratíssima por isso. Mas assim como tem pessoas bem melhores afortunadas, também há aqueles que nem um mediador conseguiram. Mães que no meio da noite choram em silêncio porque seu filho foi maltratado pelo professor ou negligenciado pela coordenação, por “ser mimado demais”. Crianças que entram em crise por passar mal com luzes fluorescentes e não podem usar óculos escuros porque é contra o regimento escolar. Nem entro no mérito de autistas não-diagnosticados, com consultas atrasadas e sem medicação. Os autistas severos e seus cuidadores, que estão em isolamento social muito antes dessa pandemia avassaladora.
Essa discussão vai além do que o poder público pode fazer. Podemos incluir dentro da própria família, do círculo de amigos, da igreja, de onde você fizer parte. Não apenas ignorar ou segregar, mas também controlar o desejo de superproteger, perpetuando a velha máxima de que todo deficiente é bonzinho e que é um super-heroi por desenvolver sua potencialidade. Temos anjos em casa? Nem sempre. Temos seres humanos, com limitações e desafios que podem nos levar à loucura, mas uma vez que aprendemos algumas ferramentas para lidar, a vida fica menos dura.
Para além de tecnologias assistivas, projetos arquitetônicos que facilitem a acessibilidade, para além de falsa inclusão e brigas partidárias, devemos refletir, olhar para dentro e nos perguntar em que estamos facilitando a vida do próximo. Há cuidados que não requerem dinheiro ou lei.
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Bárbara Maia é graduada em Psicologia pelo Centro Universitário Uninorte, é mãe de um autista severo de 5 anos e cantora nas horas vagas.




















