O prefeito que prometeu o diferente, mal foi eleito e já havia iniciado seu Projeto Azul. Chamaremos assim o projeto que é mencionado em momentos oportunos da gestão, mas que ninguém vê saindo do papel e há grandes chances de ser usado como peça-chave na tentativa de reeleição — cobre-me se eu errar, o registro ficará aqui até 2024.
Foi em dezembro de 2020, um mês após vencer as eleições, que Tião Bocalom mencionou pela primeira vez que criaria casas populares para a população de Rio Branco em vulnerabilidade. Em fevereiro voltou a mencionar o projeto e em março, chegou a viajar a Brasília sob o pretexto de conseguir recursos, mas caiu por terra… O tal Projeto Azul só voltaria a ser mencionado nesse período de campanha — um ano depois — no mesmo final de semana em que Bocalom promoveu evento em saudação a seus candidatos apoiados.
No entanto, o projeto veio com diferenças: ao ser eleito, Bocalom disse em entrevista ao jornal ContilNet que construiria 3 mil casas populares na capital. O lugar seria a Cidade do Povo, onde segundo o prefeito, caberia a quantidade prometida (aproveitou assim para insinuar que no governo passado dava pra fazer mais). A nova promessa reduziu o número drasticamente, caiu para mil e o prazo dado foi até o final do mandato, que coincide logicamente com sua iminente candidatura à reeleição.
Diferente de governadores, Bocalom não pode usar a “desculpa” da pandemia por essa demora, já que quando foi eleito, o mundo caminhava para o fim de seu primeiro ano pandêmico e os impactos causados pelo coronavírus na economia já eram conhecidos e previsíveis, mesmo assim ele prometeu. Também não pode usar a clássica justificativa do rombo de gestões anteriores, já que quando assumiu, a ex-prefeita Socorro Neri havia deixado a gestão com Rio Branco sendo considerada a 2ª capital com melhor saúde financeira do país — ou seja, havia dinheiro em caixa.
Outro erro fatal no projeto, seria a permanência da ideia de levar para a Cidade do Povo. Além do local ser consideravelmente distante de toda a rotina em que os beneficiários estariam habituados – criando outros tipos de problemas – o conjunto habitacional é hoje uma das áreas de maior vulnerabilidade ao crime organizado em Rio Branco. Foi na Cidade do Povo nessas eleições que integrantes de uma facção criminosa cobraram “pedágio” de candidatos que desejassem fazer campanha lá, com direito até a exclusividade.
Como jornalista, posso dizer que as notícias escritas sobre a Cidade do Povo reiteram um grito de alerta de um lugar que precisa de mais atenção das autoridades e de providências para encerrar a “abdução” dos jovens pelo crime organizado. A pergunta é: seria inteligente, antes de combater o problema da segurança pública na Cidade do Povo, dobrar a sua população? É preciso ter ciência de que isso seria – também – duplicar o número de jovens que podem ser recrutados para o narcotráfico, sobretudo, em uma época de crise financeira e alta inflação. Em uma região isolada, que facilmente poderia tomar “autonomia”, como ocorre em algumas comunidades cariocas. É preciso, acima de tudo, planejamento e estratégia.
Espero que o prefeito já tenha se atentado a este fato. Caso não, fica o alerta. Mas de uma coisa não há dúvida, as casas populares serão bastante usadas como instrumento de campanha em 2024. Além disso, o Projeto Azul é coisa de quem já entrou no mandato pensando no próximo. Comum, mas não deveria ser.




















