OPINIÃO

Será que um dia teremos um outro líder igual a Leonel Brizola? — por Anderson Siqueira


Imagem Aspas PNG - 125 imagens de Aspas em PNG GRÁTISO ano é 1923, um homem olha para trás e vê sua esposa e seus cinco filhos ficarem cada vez mais distantes de seus olhos a medida em que seus passos são cadenciados por soldados de uma revolução federalista no Rio Grande do Sul. Um de seus filhos, um bebê de apenas um ano de idade, nem mesmo havia sido registrado em cartório. Era a última vez que aquele homem olhava para sua família… Quando ele retornasse àquela casa, estaria deitado em cima do lombo de um cavalo, sem a sua cabeça.

Não é a forma mais agradável de se iniciar um texto, eu sei. Mas foi assim que iniciou a vida de uma das figuras políticas mais importantes da nossa história: aquele bebê. Sim, aquele bebê se tornaria uma grande liderança, lutaria por reformas em favor dos mais necessitados, brigaria para aumentar as vagas em escolas e universidades para que todos tivessem acesso à educação e enfrentaria com tamanha coragem grandes generais do exército em favor da democracia.

O ‘gurizinho’ como passou a ser chamado, nasceu dentro de uma revolução e teria uma vida dedicada a revolucionar o sistema político brasileiro. Inicia aqui, no pequeno município de Carazinho a história de Leonel de Moura Brizola.

Nasce um líder

Após a execução de seu pai, José Oliveira Brizola, a família de Leonel perdeu suas terras em um litígio judicial e sua mãe passou a enfrentar grandes dificuldades para criar seus filhos. Leonel foi inclusive alfabetizado por ela, por falta de condições de ingressar em uma escola. Aos 12 anos de idade, ele se mudou para a capital Porto Alegre para trabalhar como engraxate e operador de elevadores.

Brizola, aos 14 anos de idade

Em Porto Alegre, ele deu continuidade aos seus estudos e se envolveu em grêmios estudantis, mostrando seu espírito de liderança. Mesmo com todas as dificuldades, se formou em engenharia civil em 1949 e em 1950 se casou com Neusa Goulart, irmã do então deputado estadual e aquele que em breve seria presidente do Brasil, João Goulart, também conhecido como Jango. Seu talento político para construir relações era tanto, que um dos padrinhos de seu casamento era nada mais, nada menos do que Getúlio Vargas.

Um político respeitado

Ainda na universidade, Brizola filiou-se ao antigo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), por influência de Vargas, onde organizou e liderou a ala jovem do partido, o que lhe ajudou a se eleger deputado estadual em 1946. Na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, sempre defendeu a classe mais pobre da população e o aumento de número de vagas em escolas e universidades, o que foi lhe rendendo notoriedade.

Brizola e sua família, a esposa Neusa Goulart, e os filhos Neusinha, José Vicente e João Otávio

Seu carisma e determinação foram fazendo dele uma pessoa popular e ele foi reeleito na eleição seguinte, em 1950, com seis vezes mais votos do que a primeira eleição. Seis anos mais tarde, em 1956 ele foi eleito prefeito de Porto Alegre, onde entre suas realizações, ele determinou que as escolas passassem a ter aulas em dois turnos, para aumentar o número de vagas e poder educar cada vez mais pessoas.

Posse de Brizola como governador do Rio Grande do Sul

Antes de terminar seu mandato de prefeito, em 1958, aquele menino pobre de uma pequenina cidade do interior seria eleito governador do Rio Grande do Sul e como grande inovação na promessa de alavancar o estado, criou seis secretarias para agilizar os processos e todas as sextas a noite ele apresentava um programa de rádio onde prestava contas com a população, era um visionário.

O Rio Grande do Sul se tornou pequeno demais para a grandeza de Brizola

Brizola e Juscelino Kubitschek em 1958

O início dos anos 60 foi um período conturbado para a história do Brasil, Juscelino Kubitschek deixava a presidência em 1961 e passava o bastão para Jânio Quadros, tendo João Goulart como vice. Brizola por sua vez, apesar de conhecido, amado e respeitado no Rio Grande do Sul, teve importante participação nacional naquele ano, pois poucos meses após assumir o cargo, Jânio Quadros renuncia à presidência em meio a um cenário caótico.

Nesse dia, Jango estava na China em visita oficial, enquanto no Brasil as forças militares preparavam uma invertida com apoio do deputado Ranieri Mazzili, que estava na função de presidente em exercício. Eles queriam impedir a posse do vice-presidente, ferindo assim a democracia e a constituição federal e com o vice-presidente longe, Jango estava inerte aos acontecimentos, sem forças para reivindicar seus direitos, tendo sido inclusive ameaçado de ter seu avião derrubado caso tentasse voltar ao Brasil.

É aqui que Brizola bate no peito, cria um movimento chamado Campanha da Legalidade, na qual ele convocou os brasileiros a lutarem pela legalidade e defender a Constituição e a democracia, Brizola lutou pela causa com todas as forças, mobilizou a população civil, incitou à resistência e promoveu mobilizações pela democracia em vários estados, sua cadeia de legalidade estava no ar insistentemente e essa firme atitude também dividiria as Forças Armadas e ele ganharia a adesão do poderoso 3º Exército, com 40 mil soldados, 13 mil homens da Brigada Militar e 30 mil voluntários armados, à disposição do grande líder.

Pronto para o que vier, Brizola segura um fuzil durante a Campanha da Legalidade

A pressão e resistência que ele organizou deu certo e João Goulart regressou ao Brasil em segredo, para evitar atentados, entrando pelo Uruguai e assumindo de vez o governo. Leonel Brizola acaba ali de frustrar a primeira tentativa dos militares de implantarem a ditadura no Brasil.

No ano seguinte, em 1962, ele foi eleito pela primeira vez deputado federal, mas não pelo Rio Grande do Sul, foi pelo antigo estado da Guanabara, hoje Rio de Janeiro, onde fez discursos veementes continuando a defender os mais pobres, falando sobre implantação da reforma agrária e a distribuição de renda no Brasil.

Brizola contra o Golpe Militar de 64

Dois anos após ser eleito deputado federal, aconteceu no Brasil um dos episódios mais lamentáveis da nossa história, com apoio dos Estados Unidos, João Goulart é desposto do poder e a ditadura militar estava implantada, o país estava prestes a viver dias sombrios.

João Goulart e Brizola, na década de 60

Brizola quis resistir até o fim, reunir os homens do 3º Exército e brigar pela democracia mais uma vez, se envolveu em planos para enfrentar os militares, inclusive proferindo um ardente discurso público na Câmara Municipal de Porto Alegre, exortando os suboficiais do exército a “ocupar quartéis e prender os generais”, o que lhe valeu o ódio duradouro dos comandantes militares da ditadura. Mas temendo uma sangrenta guerra civil, Jango apenas admitiu a derrota e orientou o cunhado a fazer o mesmo, não restava mais o que fazer, o golpe tinha apoio da maior potência do mundo.

Exílio e volta à vida política no Brasil

Após os militares tomarem o poder, Leonel Brizola se exilou no Uruguai e só conseguiu retornar ao Brasil em 1979, com a Lei da Anistia, Jango que também estava exilado havia falecido três anos antes. Mas Leonel não voltou de braços cruzados, para reerguer o antigo PTB e continuar a lutar pelo Brasil, ele funda no mesmo ano o Partido Democrático Trabalhista (PDT) em uma linda história, e foi eleito em 1982 governador do Rio de Janeiro, na primeira eleição direta para governador desde 1965.

Brizola e sua família deixando o Uruguai, no final da década de 70

Ele é até hoje a única pessoa em toda a história do Brasil a ser eleito governador em dois estados diferentes. Em 1984, apoiou a campanha das Diretas Já e viu a queda da ditadura que tanto tentou evitar, mais uma vez o Brasil respirava o doce ar da democracia.

Eleições presidenciais

Em 1989, concorreu à presidência do Brasil, com o inesquecível jingle ‘La La La Brizola’, ficando em terceiro lugar, atrás de Lula e Fernando Collor, na ocasião, Brizola apoiou o candidato do PT. Em 1991 assumiu seu segundo mandato no governo do Rio de Janeiro e em 1993 perde sua esposa, Neusa Goulart, para uma infecção generalizada.

Em 1994, Brizola voltou a tentar concorrer à presidência, mas acabou ficando em quinto lugar, o velho combatente de guerra começava a perder força política nacional e passou a ser crítico das políticas liberais de Fernando Henrique Cardoso.

A cantora Beth Carvalho, Leonel Brizola e Neusa Goulart, em campanha presidencial em 1989

O fim de uma lenda, um legado que ficou

Aquele bebê que teve uma vida de militância e revolução desde que seu pai foi executado na Revolução de 1923, dedicou uma vida inteira não só à política, mas aos seus ideais, sua vontade de mudar a realidade do Brasil, em prol da educação, da reforma agrária, do direito à vida e à democracia, por muitas vezes, arriscou a própria vida para que tivéssemos o direito à liberdade. Foi expulso de seu próprio país e retornou para dar continuidade aos seus projetos.

Leonel Brizola faleceu em 21 de junho de 2004 vítima de um infarto agudo do miocárdio, e até hoje, temos a dúvida… Será que um dia teremos um outro líder igual a Leonel Brizola?

 

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